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Folhas de Viagem

Uma das narrativas sobre a invenção de uma linguagem plástica modernista no Brasil tem suas origens no retorno de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade da França e na primeira visita do escritor Blaise Cendrars ao País, em 1924. Acompanhado por Tarsila, Oswald, Mário de Andrade, financiado por Paulo Prado, Cendrars empreende uma viagem ao interior do Brasil, pelas cidades coloniais de Minas Gerais. Dela resultou um grandioso projeto, de uma coletânea de poemas e escritos que teriam sido organizados em 8 volumes, mas que naquele momento, publicou-se apenas um. Feuilles de Route: I. Le Formose é um diário de bordo, em forma de poema, de sua viagem de navio até o Brasil. O livro é ilustrado por Tarsila, tendo na capa um esboço de A Negra. Junto com esse volume, Oswald publica em Paris sua coletânea de poemas Pau-Brasil. Em suas memórias, Cendrars descreveu o Brasil como sendo “(...) de uma grandeza inefável onde a civilização e a selvageria não contrastam, mas se mesclam, se conjugam, se casam, de uma maneira ativa e perturbadora...”

 

Por outro lado, as proposições de Tarsila, Oswald e Mário, naquele momento de encontro, situavam-se para além do campo das artes visuais, estando eles envolvidos na construção de um novo projeto de nação, que viria a resultar na publicação de Macunaíma de Mário de Andrade, nas suas expedições folclóricas e na criação do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Tarsila desenvolve sua pintura Pau-Brasil, e Oswald escreve seu Manifesto Antropófago, cujas teses de “devoração do outro” (neste caso, a cultura europeia) tiveram uma longa trajetória na poética de artistas aqui e lá. Num mundo em que assistimos a uma tensão crescente em diferentes territórios, no qual ainda parecemos falar de diferenças de povos e classes sociais, as proposições lançadas nos anos 1920 podem ainda ser relembradas, na medida em que apontavam para o desejo de uma nova humanidade, sobretudo no caso do Brasil, em que a “mescla” de civilização e a selvageria parece continuar a operar no imaginário de quem chega aqui.

 

De julho a agosto de 2010, a artista francesa Laura Martin fez sua residência no MAC USP. Como para Cendrars nos anos 1920, seu primeiro encontro com o Brasil foi com São Paulo, cidade contraditória, plena de conflitos e utopias subjacentes. A artista registrou seus percursos, seus encontros, vividos de improviso ou provocados, através de uma espécie de diário de imagens e palavras, sobretudo daqueles que, para ela, constituem “espaços” ou “instantes” silenciosos dessa realidade. A coletânea de fotografias Uma Cidade para Todos foi construída a partir dos registros de uma série de atividades que a artista propôs com o apoio da ação educativa do MAC USP (em colaboração com a educadora Andrea Amaral). Com a ação Tocar para Dizer (já realizadas na Índia e na França), e com o uso da técnica do “teatro de imagens”, emprestado das práticas do “teatro do oprimido” de Augusto Boal, Laura Martin desenvolveu uma relação de colaboração com seu público. Em Tocar para Dizer, a douração da pele dos participantes servia de metáfora da valorização das mãos de artesãos (oriundos da situação de rua) de organizações sociais. No Brasil, cuja história inscreveu-se na tradição da escravidão, a ação procurou tocar neste ponto invisível. Já as técnicas do “teatro do oprimido” foram empregadas numa ação de registro de gestos e experiências cênicas, com esses mesmos grupos, que procuraram assim traduzir suas noções de resistência, acolhimento, opressão etc.

 

Palavras que nós Carregamos, Palavras que nos Carregam é um alfabeto de palavras, que resultou de um trabalho colaborativo com os funcionários do MAC USP, da sede do Ibirapuera, não diretamente associados à face pública do museu e às suas atividades de exposição (pessoal do serviço de limpeza e segurança), que dividiram esta experiência com os funcionários especializados do Museu. Através de jogos de escrita desenvolvidos pela artista, os participantes procuraram eleger palavras que lhes eram importantes ou significativas. Organizadas em ordem alfabética, elas formam uma grande tira, que percorre o rodapé do espaço expositivo.

 

Como na proposição oswaldiana, Laura Martin elabora suas ações colocando em xeque a relação tradicional entre o artista, sua criação e seu público, pois seu trabalho questiona o papel da artista como condutora do processo. A dimensão poética das ações de Laura Martin revela uma sutileza que parecia estar no cerne do projeto modernista do qual falamos, assim como também em alguns trabalhos de artistas brasileiros presentes na exposição.

 

Quebrando Rocha (2008) do coletivo MOMA/V-DOC constitui-se da edição e decupagem de uma série de filmes, entrevistas e documentários de e sobre Glauber Rocha. Personagem central do Cinema Novo nos anos 1960, Rocha buscou uma linguagem autêntica para o cinema brasileiro, questão que é revisitada na proposição do coletivo.

 

Em Sem título (Grupo Modigliani), Bartolomeo Gelpi confrontou-se com o Autorretrato de Amedeo Modigliani, do acervo do MAC USP. Tal escolha refletiu, antes de tudo, a formação de Gelpi, cuja trajetória como pintor foi sendo feita em contato com o acervo do MAC USP. Gelpi trata da obra como uma espécie de gramática da cor, a qual ele nos desvenda num conjunto de pinturas que exercitam sistematicamente os tons e cores usados pelo artista italiano.

 

Esse diálogo que Gelpi estabelece com Modigliani aproxima-se do Projeto Tarsila de Gustavo von Ha. Ao copiar desenhos de Tarsila do Amaral da sua fase Pau-Brasil, o artista recoloca o problema da formação artística e trata daquela experiência modernista como um cânone para a produção contemporânea. Vai ainda mais longe quando trabalha sobre folhas de papel de cem anos atrás e na escolha de molduras, ora compradas em antiquários, ora deliberadamente envelhecidas. Desse modo, e assim como nas proposições de Gelpi, de Martin e do coletivo MOMA/V-DOC, ele desconstrói uma apreensão linear do tempo e da história da arte, fazendo emergir vários tempos contemporaneamente.

 

Folhas de Viagem procura, através do trabalho desses artistas, revisitar o gesto antropofágico enquanto deslocamento e encontro com o outro – no tempo e no espaço – resgatando os laços entre arte e vida.


               

Ana Gonçalves Magalhães

curadora MAC-USP

dezembro, 2012