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T. L., ou acerca do efeito Rashomon

"Afinal, o que são estes ‘desenhos copiados’ daqueles artistas já tão claramente identificáveis por sua produção, pelas características personalistas de suas imagens, por sua inserção na história da arte, em particular a brasileira?"

Tempo tempo tempo tempo

Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
...

Tempo tempo tempo tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo
Ainda assim acredito


Caetano Veloso
 

T.L. apresenta estruturalmente, e uma vez mais[1], a proposta de confrontar duas séries de trabalhos de mesmas condições, de mesmas intenções e de mesmas investigações às quais Gustavo von Ha tem se dedicado nos últimos quatro anos, como parte de sua pesquisa que, apenas inicialmente poderia ser amplamente identificada, ou caracterizada pela noção de atravessamento. Trata-se, básica, e explicado de forma simples, do processo de produção da imagem: a imagem/ espelho que produz uma espécie de fusão entre os “dois lados”, utilizando o crossfade; uma estratégia que possibilita ao artista materializar, na superfície do papel, a imagem que nasce de um primeiro referencial visual que se ofereceu para a produção daquelas que, agora, passam a integrar o mundo.

 

 

As novas imagens, as produzidas pelo artista, nos possibilitam perceber um processo de renascimento daquela imagem que, originariamente existe inserida no tempo e no espaço, mas que neste novo jogo proposto apresenta-se, ao olhar do observador, com um novo corpo, com uma subversão de seu ponto de partida: T. e L, como nos propõe, o título da exposição, em um pequeno enigma, imediatamente decifrável quando nos inserimos na exposição. Como que escondidas, as imagens decorrentes do processo conquistam o seu lugar no mundo e depois se afirmam, autonomamente.

 

 

A escolha, pelo artista, dos universos referenciais – no recorte proposto para esta mostra – constituído de Tarsila do Amaral e José Leonilson, pode ser lida de distintas formas, sejam as explicitadas por Gustavo von Ha, sejam aquelas que se oferecem ao nosso olhar inquiridor e investigador. Afinal, o que são estes ‘desenhos copiados’ daqueles artistas já tão claramente identificáveis por sua produção, pelas características personalistas de suas imagens, por sua inserção na história da arte, em particular a brasileira? No que se constitui esse processo que, depois de aparentemente identificado, aponta para referências explícitas como a história da arte brasileira, investigações acerca do desenho e de suas potencialidades na arte contemporânea, ou ainda, questões que integram os procedimentos questionadores da produção contemporânea, como releitura, cópia, apropriação, inversão, espelhamento e outras possíveis leituras? E não seria ainda possível apontar o interesse, explícito, do artista por assuntos outros como a memória, noções de beleza ou o non sense? E o que pode ser, também, vislumbrado, mas se torna inexoravelmente presente: o tempo.

 

 

Afirma-se, pela operação do confronto/ diálogo naturalmente visível na disposição dos dois conjuntos de desenhos que constituem o arranjo proposto no espaço expositivo, a perspectiva de, contemporaneamente, apresentar imagens que se referem a distintos momentos do passado e que neles se espelham para, fazer coexistirem presente, passado próximo e passado distante, simultaneamente. Impossível negar que as imagens apontam para o passado, impossível também negar que as imagens do passado estão nas imagens do presente e, assim, camadas simultâneas de referências constituem o tempo presente, o da exposição. Presente como passado e passado como presente? Ou apenas uma (a)ilusão do tempo?

 

Ao mencionar a condição de espelhamento - ainda que uma referência virtual ao processo de constituição das imagens - abre-se outra perspectiva de aproximação com o processo, mas ainda de forma mais concreta com os desenhos, a referência explícita ao espelho[2] e, deste, como o lugar no qual a imagem não é – em uma perspectiva física/ material – e se desvanece. As imagens existem em seus suportes, a primeira que dá origem e a segunda, fruto do processo, mas o espelho é o lugar da passagem do atravessamento e não da existência, ou da permanência. 
 

 

 

 

A imagem se perfaz, se realiza através do espelho e, importa aqui ressaltar, também, por intermédio do espelho. Há, portanto que se fazer uma distinção clara entre os dois termos, uma vez que o processo pressupõe este jogo de duplicidade de sentido para eles.

 

Se o processo de elaboração das imagens partiu da pré existência delas, se assumi-las, individualmente como imagem significa fundir todos seus elementos, incluindo aquilo que há de ‘assinatura’ no original, então como solucionar isto sem, também, atravessar o espelho, na busca da identidade do autor?

 

Ainda é preciso mencionar que ao articular seu interesse pelo desenho, com as produções de outros artistas, seu próprio caráter de irreverência e superação de referências, como é o caso de Tarsila, ou ainda, a ironia e provocação, bem como sarcasmo e mordacidade típicos de Leonilson, o que se aplica ao caráter transgressor – aqui não utilizado de forma banal, por mero exercício de iconoclastia aos nomes consagrados – de subverter o valor ‘aplicado’ aos trabalhos de ambos, e que, aqui, são, de uma ‘forma atravessada’ jogados em outra dimensão, ao provocarem certa ‘dês-compreensão’ dos trabalhos, propondo imagens que são - se não fossem as inversões, nem sempre de imediata apreensão - ‘iguais’ àquelas produzidas pelos dois artistas.

 

Isto é mais um questionamento, dentre aqueles propostos por T.L, e se quisermos adentrar no jogo proposto por Gustavo von Ha teremos que nos lançar, diante dos desenhos, para perscrutar as intenções, ou provocações que ele nos propõe. Assim, retomando a idéia inicial do atravessamento, poderíamos tentar entendê-lo, aqui, como o ato de jogar o observador à sua própria sorte?

 

Será que conseguiríamos encerrar as indagações aqui, e assim? Ou poderíamos ter, ainda, outras instâncias dessa natureza a serem exploradas? Por certo que sim, afinal ‘do outro lado do espelho’ há muito do que sempre podemos não conhecer, ou compreender, ou mesmo lembrar. Quando algo é registrado em nossa memória há um processo de fragmentação da informação, desintegração da sua totalidade que se espalha, por assim dizer, em nossa mente e, para retomar essa ‘memória’, precisamos reagrupar os fragmentos para, nesse processo, reconstituir os fatos e acontecimentos aos quais queremos nos referir. O processo é uma reconstrução, e não uma ‘simples’ reprodução, uma vez que ele se dá pela inserção de elementos que constituem a experiência e vivência deste que agora o reconstrói.

 

O processo de constituição e, por consequência, de leitura de imagens não pode ser pensado de outra forma. Pode-se, portanto, inferir que produzir e ler uma imagem implica em introduzir, nela, expectativas, preconceitos, referências culturais, articulações e esquemas mentais próprios, enfatizar aquilo que lhe é mais significativo, além de racionalmente rearticular para dar sentido e inteligibilidade ao processo de criação, tanto quanto ao de leitura e apreensão da imagem que, pode parecer querer me enganar pela aparente natureza imediata de apreensão. A memória pode - de alguma forma - nos atraiçoar, ou até mesmo atraiçoar a todos que se deixarem enganar apenas pelas recordações, quando o que aqui se propõe é deixar-se embalar por elas, por sua circularidade e infindável potencialidade de provocar, de seduzir, de produzir relações e rearticulações com o que se vê.

 

Marcos Moraes

São Paulo, maio de 2012

 

 


 

 

[1] É preciso mencionar que a exposição dá continuidade e aprofunda uma investigação já colocada em diálogo com o público, na exposição Double Crossing, apresentada pelo artista em Tóquio, na Project Gallery (Promo-Arte latin American).

 

[2] Se o espelho como instrumental de pesquisa e de produção de imagens atravessa a história e as referências a ele são inúmeras, da mesma forma a pesquisa de Von Ha desenvolveu-se em torno de investigações desta natureza, ao longo destes anos de trabalho.