
BRAZILIAN WAX
Trabalho realizado no contexto da residência Casa Azul/Emerge Carnaval
Torres Vedras, Portugal
Março de 2023.
ocultação e chromaqui: como se fosse uma máscara
Gustavo von Ha (Presidente Prudente, Brasil, 1977) foi convidado pela Associação EMERGE, sediada em Torres Vedras, para participar num programa anual de residência de artistas, sob o tema da celebração do centenário do Carnaval de Torres Vedras. Esta residência teve o seu início algumas semanas antes, nos dois lados do Atlântico, e foi muito profícua na troca de ideias, essencialmente porque todo este projecto se configurou numa prática colectiva: o artista, a estrutura de produção e a curadoria.
O corpo é um território político onde ocorrem mudanças e transições que se põem perante o Outro. O corpo é, assim, o lugar da afirmação da celebração e da camuflagem. von Ha inicia uma abordagem a todo esse processo de transição criando uma deriva em relação ao tema, o Carnaval, que se instituiu como uma rede de plataformas massificadas que não abandonam mas ultrapassam a necessidade individual da catarse, da euforia dionisíaca, e a possibilidade, sempre efémera, da transgressão de modelos herdados e sujeitos a uma transmutação.
Na sua bagagem nómada, o artista trazia consigo duas obras provenientes do seu ateliê, no Brasil: duas esculturas em processo de criação, uma cópia de dimensões domésticas de uma Pietà grafitada, de facto um exemplo da “pichação paulista”, e uma espécie de biberão/falo modelado em barro pelo próprio artista.
Estas duas obras, numa profusão de objectos, desenhos, vídeos, transcrições, apropriações e esculturas que constituem a exposição, reúnem, do meu ponto de vista, três questões fundamentais que estruturam o projecto na Casa Azul, relacionando temas com a herança cultural europeia, os modelos instituídos pelas estruturas de poder e sujeitos à crítica popular, e a ironia derrisória, porventura divertida, que associa o vernáculo e a cultura popular a questões de género e de identidade.
O Carnaval é tido como um tempo de excesso e de exceção, mas é também um tempo da intimidade que se exterioriza na revelação e, simultaneamente, na ocultação do sujeito, que se prepara para esse momento em que se torna urgente ser o outro de si mesmo.
Neste aspecto, o artista opera de um modo subtil, manuseando diferentes códigos e linguagens que percorrem um imaginário visual onde a memória e a sua presença como vivência da realidade se fundem, cruzando a realidade e a ficção, ou o desejo como efabulação de uma roupagem indefinida que, parecendo apenas irreverente, é afinal a assunção da diferença.
Na sua prática artística, Gustavo von Ha desenvolveu uma estratégia, quase camaleónica, de integrar outras formas autorais, tornando-se co-autor através de um gesto tão simples como fazer um convite a outras pessoas da comunidade onde se encontra para integrarem e partilharem as suas obras.
Uma mulher e um homem personificam, em duas obras de vídeo, uma acção disruptiva que causa uma certa estranheza ao agirem sobre o seu corpo desnudado com um produto cosmético que vai cobrindo e apagando a totalidade das suas tatuagens.
O que parece ser uma devolução da textura da pele à sua aparente condição original pode ser um questionamento sobre essa mesma condição originária, sobre a sua legitimidade e sobre a sua verdade.
O resultado destas colaborações, muitas vezes inesperadas, é devolvido a essa comunidade como um momento de estímulo e desejo, como por exemplo no vídeo publicitário partilhado no espaço público nos ecrãs de uma rede de transportes rodoviários, anunciando um novo cosmético da marca VON HONEY.
Esta obra, que é difundida como um verdadeiro anúncio, é uma construção ficcional que joga com os meios de comunicação e com a sua hipotética verdade, além de algumas referências pessoais do autor, como o seu nome, o mel que cultiva, e o caráter abrasivo de um cosmético ou detergente(?) que limpa a pele, mas também o lavatório onde a actriz que protagoniza o vídeo faz a sua higiene.
Nas palavras da locução, “a força da indústria cultural na sua pele”.
É uma experiência fragmentada, e distante da sala de exposição, fruída pelo cidadão comum num transporte público, que apela ao desejo, mas resgata uma mensagem política da posição e da condição interventiva do artista.
Nas salas da exposição, Gustavo von Ha assume de forma radical o jogo das imagens. A montagem é lúdica, excessiva, povoada de obras em diversos meios, como a escultura em bronze, na memória da pequena escultura fálica que atravessou o oceano, nas pinturas como peles de onça, o néon (a “pichação” transmutada como obra Pop), ou o monólito de uma utopia que parece distante, e tão próxima, como o filme de Stanley Kubrick, 2001 - Odisseia no Espaço (1968).
E todas, ou quase todas, as formas, signos, bordados e pinturas, como por exemplo “La Danse”, executada com materiais como maquilhagem e tinta sobre tecido camuflado, rememorando Matisse.
Percorremos essa montagem como um cenário que pode ser carnavalesco, mas pode ser também um breve museu do imaginário, de seu nome “BRAZILIAN WAX”, que nos traz Torressauros como pequenos monstros da mitologia torreense: Unicórnios, Pixos, Pixozinhos, um “Peludo” ou um(a) “Blade Strass”.
São estas outras formas e objectos resgatados à rua, a esse espaço público que vai ser devolvido aos transeuntes na sala de exposição pintada em verde Chroma Key, onde qualquer um de nós se pode fotografar, construindo para cada um uma outra exposição, num cenário que é, de certa forma, uma das muitas heterotopias que von Ha desconstrói.
BRAZILIAN WAX, como se fôssemos todas as máscaras.
João Silvério









